Março Amarelo: O elo silencioso entre obesidade e endometriose que a ciência já reconhece

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Inflamação, hormônios e metabolismo conectam duas condições que impactam milhões de mulheres — e exigem um olhar integrativo da endocrinologia

Março é o mês de conscientização sobre a endometriose, campanha conhecida como Março Amarelo. A doença, que atinge cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva, ainda é cercada por desinformação, atraso no diagnóstico e sofrimento silencioso. O que muitas pacientes não sabem é que existe uma conexão importante entre endometriose e obesidade — e ela passa diretamente pelo sistema hormonal e metabólico.

A endocrinologista Carolina Mantelli explica que as duas condições compartilham mecanismos biológicos relevantes. “Tanto a obesidade quanto a endometriose são estados inflamatórios crônicos. O tecido adiposo não é apenas um depósito de gordura; ele é metabolicamente ativo e produz substâncias inflamatórias que impactam todo o organismo”, afirma.

Segundo a médica, essa inflamação sistêmica pode influenciar diretamente a evolução da endometriose. “A endometriose é uma doença estrogênio-dependente e inflamatória. Quando existe excesso de gordura corporal, há maior produção periférica de estrogênio, o que pode favorecer um ambiente hormonal propício à progressão das lesões”, explica.

O tecido adiposo possui a enzima aromatase, responsável por converter andrógenos em estrogênio. Em mulheres com sobrepeso ou obesidade, esse mecanismo pode intensificar o estímulo hormonal sobre os focos de endometriose. “Não significa que toda mulher com obesidade terá endometriose ou que toda mulher com endometriose estará acima do peso, mas sabemos que o desequilíbrio metabólico pode agravar sintomas e dificultar o controle da doença”, ressalta.

Outro ponto de interseção é a resistência à insulina. Muito associada à obesidade, ela também pode estar presente em mulheres com endometriose. “A resistência insulínica aumenta inflamação, altera o ambiente hormonal e impacta fertilidade. Estamos falando de um eixo metabólico que precisa ser investigado quando a paciente apresenta dor pélvica crônica, dificuldade para engravidar ou sintomas intensos”, diz.

A endometriose é uma das principais causas de dor pélvica crônica e infertilidade feminina. Já a obesidade está associada a maior risco de distúrbios ovulatórios e alterações endometriais. Para a endocrinologista, olhar apenas para o sintoma isolado é um erro comum. “Precisamos sair da abordagem fragmentada. A mulher com endometriose não deve ser avaliada apenas pelo viés ginecológico. O metabolismo, o perfil inflamatório e o estado hormonal global precisam ser considerados”, defende.

Durante o Março Amarelo, a conscientização vai além da dor menstrual intensa. Envolve compreender que a saúde feminina é multifatorial. “Quando promovemos equilíbrio metabólico — com alimentação anti-inflamatória, prática regular de atividade física, melhora do sono e controle da resistência à insulina — estamos atuando não só no peso, mas também na modulação hormonal e inflamatória”, afirma a médica.

Ela reforça que o objetivo não é estigmatizar o peso corporal, mas compreender o organismo de forma integrada. “A obesidade é uma doença complexa, assim como a endometriose. Ambas exigem acompanhamento médico individualizado. O foco deve ser saúde metabólica, qualidade de vida e redução da inflamação”, conclui.

No mês de conscientização, a mensagem é clara: entender o corpo como um sistema interligado pode ser decisivo para diagnóstico mais precoce, tratamento mais eficaz e mais qualidade de vida para milhões de mulheres.